Uma leitura que explora como C. G. Drews transforma o corpo, o trauma e a neurodivergência em linguagem estética e revolta poética
Há livros que contamos ter lido, e há livros que nos leem de volta. Hazelthorn, de C. G. Drews, pertence a essa segunda categoria. Ele não se contenta em ser folheado; ele invade, consome e se entranha nos espaços mais escuros de quem ousa abri-lo. E para mim, uma leitora autista acostumada a viver em silêncio e a sentir demais, Hazelthorn foi como ser olhada, finalmente, com olhos que não desviam.
Evander, o protagonista, vive isolado na mansão Hazelton, um labirinto de corredores decadentes, jardins engolidos por espinhos e memórias sufocadas. A primeira frase já nos prende pela garganta: “He knows what it is to be buried alive.” Essa imagem não é apenas literal, ela é simbólica do modo como Evander vive: enterrado em si mesmo, enclausurado por adultos que o tratam como uma doença, não como uma pessoa.
Como leitora autista, a sensação de estar trancada em um corpo e em um mundo que não entende sua forma de sentir me atingiu com brutalidade. O modo como Drews descreve o tédio de Evander, o peso das repetições, o desconforto sensorial, o cheiro, o som, a textura do ambiente, é de uma precisão quase dolorosa. Há uma cena em que ele descreve o som da casa como “um animal respirando pelas paredes”, e eu me vi ali, presa também, sentindo o mundo respirar alto demais.
Drews transforma a mansão num organismo vivo, e essa simbiose entre espaço e mente é um dos pontos mais brilhantes do romance. Hazelthorn não é apenas cenário: é o corpo coletivo da neurodivergência, da culpa, da raiva reprimida. O horror não vem de fora; ele floresce das rachaduras da alma.
Quando Laurie retorna, o menino dourado que tentou matá-lo anos antes, o livro se parte em dois tons: o gótico e o visceral. É impossível ler essa relação sem sentir o peso ambíguo entre fascínio e repulsa. Evander odeia Laurie, mas está obcecado por ele. Laurie é a cicatriz e a lembrança da infância que Evander nunca pôde ter. Ele representa o trauma que continua respirando, mesmo quando o corpo tenta esquecê-lo.
Há algo de profundamente real no modo como Drews escreve o trauma: ele não segue lógica, ele é circular. Evander oscila entre raiva, medo e desejo com a mesma intensidade com que alguém neurodivergente sente o mundo, tudo ao mesmo tempo, sem filtros. A narrativa nos força a encarar que o amor e o ódio, quando nascem do abuso e da violência, se enredam como raízes impossíveis de separar.
Essa relação tóxica é, na verdade, o espelho de uma estrutura social que diz amar enquanto controla, que protege enquanto aprisiona. O senhor Lennox-Hall, o guardião “benevolente”, é o ápice disso, um homem que confunde cuidado com posse. Sua morte, numa cena grotescamente bela e orgânica (com folhas brotando de sua garganta), é o clímax da corrupção: o controle que apodrece de dentro para fora.
Há algo raríssimo na literatura contemporânea: personagens autistas escritos com raiva legítima. Evander é raivoso, não porque é cruel, mas porque é humano. E Drews, também autista, entende que a raiva é parte da sobrevivência quando o mundo insiste em nos podar. O author’s note do livro já anuncia: este é um livro sobre “autistic and queer rage”. E isso transborda em cada página. A raiva de Evander é o oposto da violência gratuita, é uma tentativa de provar que ele existe. Ser autista e sensível não é sinônimo de docilidade; é ser forçado a engolir o próprio grito por anos, até que o corpo adoeça dele.
A forma como Drews escreve essa experiência é crua, mas também profundamente poética. Há um ritmo de respiração na escrita, uma oscilação entre o claustro e o êxtase.
O texto imita a mente autista em estado de hiperfoco e sobrecarga, frases longas, repetitivas, quase musicais, seguidas de silêncios abruptos, fragmentados, como se o mundo se partisse entre pensamentos.
Ler Hazelthorn é sentir o autismo não como diagnóstico, mas como linguagem. É ver a neurodivergência transfigurada em estética, não em metáfora médica. E para mim, isso foi um alívio e uma revolução.
A beleza do livro está em como o gótico aqui não serve apenas para assustar, mas para libertar. O sangue, o apodrecimento, o corpo em mutação, tudo é símbolo da transformação de Evander. O livro entende que o horror é, às vezes, o único gênero capaz de expressar o que é ser uma pessoa marginalizada: o mundo nos trata como monstros, então nos tornamos monstros para sobreviver.
A natureza é presença constante: o jardim devorando a casa, as raízes crescendo sob a pele, o sangue confundido com seiva. Essa fusão entre o humano e o vegetal é de uma potência simbólica rara, uma metáfora daquilo que é reprimido voltando à superfície, exigindo espaço, exigindo ar. Evander não se cura: ele floresce. Mas é uma floração carnívora, feita de espinhos e de verdade.
Houve momentos em que precisei fechar o livro e respirar. Hazelthorn é visceral em um sentido quase físico: ele te faz sentir fome, febre e medo. A prosa de Drews é úmida, orgânica, cada parágrafo parece escorrer.
Mas o que mais me marcou foi o modo como o livro traduz a sensação de ser “demais”, de existir em um corpo que nunca cabe no mundo. Quando Evander mastiga terra, por fome e desespero, senti um nó na garganta. Aquilo não é loucura, é linguagem. É o corpo falando quando as palavras são negadas.
Drews entende que monstros são o que resta quando a humanidade falha em compreender a diferença. E talvez o maior gesto de amor do livro seja este: permitir que um personagem autista, queer e traumatizado seja monstruoso, e ainda assim digno de empatia, de desejo e de redenção.
No final, entendi o subtítulo que ecoa desde a dedicatória: “What is love if not devouring”. Hazelthorn é uma história sobre amor, mas não o tipo que consola. É um amor que devora, que corrói, que transforma. É sobre o desejo de ser livre e o medo de não saber o que fazer com essa liberdade quando ela finalmente chega.
Terminei o livro tremendo, não de medo, mas de reconhecimento. Porque o que C. G. Drews faz aqui é mais do que narrar um horror gótico: é reivindicar o direito de pessoas autistas e queer sentirem raiva, fome, desejo e poder. É uma história sobre monstros que, no fundo, só queriam ser deixados em paz para florescer.E eu, leitora autista que sempre se sentiu errada, barulhenta demais, sensível demais, amei Hazelthorn, porque Evander não pediu desculpas por ser intenso. Nem eu preciso mais.